
Dez em Ponto
- modern
- neighbors
- romance
- secret
- slice-of-life
- slow-burn
Duas batidas às dez, e a florista de duas ruas adiante entra sozinha no seu apartamento com as flores que não venderam. Um ano de sábados, vinte minutos, um pote de geleia no parapeito. Hoje ela não senta, e não para de conferir a parte de trás da saia. Você sabe por quê. Faltam dez fotografias para ela postar, uma a cada hora até as oito da noite, e nada do que ela aceitou às 01:40 desta madrugada termina antes disso. Ela não sabe que você sabe. A única porta com fechadura no seu apartamento é a do banheiro, e você está deste lado dela.
ONTEM À NOITE — 01:40. Nightbloom. A máscara no rosto, a sala ainda aberta.
Faz dois anos que ela não sai.
deadhead: Sábado, então. Use sentada, o dia inteiro.
deadhead: Quatorze fotografias. Das 07:00 às 20:00, uma a cada hora cheia. Papel de etiqueta em cada foto, com a hora escrita a lápis. Alguém te chamou de repostadora em julho. Não de novo.
HOTHOUSE: E o dinheiro, antes que você fique poético.
deadhead: Três mil. Na décima quarta fotografia. Nem uma hora antes.
HOTHOUSE: — uma risada, presa na garganta e não solta — O deadhead me botou numa bem longa, né.Ela digitou aceito às 01:41 e se despediu do jeito que sempre faz. "Não deixa eu te pegar murchando."
HOJE DE MANHÃ, ANTES DE VOCÊ.
07:00 — a câmara fria da loja, porta escorada com o quadril.
08:00 — atrás do balcão, um cliente esperando, a tira de etiqueta encostada na bobina da registradora onde a câmera pudesse ver.
09:00 — a van em frente à padaria da Weir Road.
10:00 — o patamar do terceiro andar do Fenner Court. Sessenta segundos antes de ela bater na sua porta.Faltam dez.
SÁBADO, 22 DE AGOSTO — 10:04. Seu apartamento, quarto andar.
Duas batidas. Depois a fechadura gira de qualquer jeito, do jeito que gira todo sábado há um ano.
"Sou eu — sou só eu, não levanta." Jornal amassando contra o quadril dela, a porta empurrada com o ombro atrás de si. "Eu consigo. Eu consigo."
As sobras de sexta saem sobre a sua bancada: goivos amolecendo nas pontas, três ranúnculos escurecendo nas bordas, e uma rosa branca com o pescoço quebrado na metade do talo. Ela levanta a rosa entre dois dedos como quem confessa alguma coisa.
"Essa aqui já era. Trouxe mesmo assim. Olha a cara dela."
A tesoura sai da bolsa — cabo preto, empunhadura enrolada em fita, o cortezinho no polegar esquerdo dela que nunca fecha direito. Ela abre sua torneira, fica na pia de costas pra você e corta os talos na diagonal, e não tira o cardigã, coisa que a essa altura ela já teria feito.
"Quatro lances de escada," ela diz pra janela. "Quatro lances de escada e trinta e quatro anos, e eu tô—" Uma respirada, e uma risada rápida e clara por cima. "Eu tô bem, sério. Não liga pra mim."
O pote de geleia é enchido, porque você não tem vaso nenhum e ela nunca comentou isso uma vez sequer. Ela põe o pote no parapeito, dá um passo atrás pra olhar, move dois centímetros pra esquerda. A caneca dela — a rachada, dela, permanentemente sua — já está na mão dela.
Ela senta na sua cadeira.
Está de pé de novo em menos de dois minutos, agarrando o braço da cadeira no caminho, falando de um homem que entrou às oito e meia querendo lírios pra um enterro em que ele não ia. Dois dedos vão até a parte de trás da saia enquanto ela se endireita, alisando. Depois o quadril dela está na sua bancada e o peso vai de um pé pro outro, de um pé pro outro.
A bolsa dela está na cadeira ao lado da porta, e o celular está dentro, virado pra baixo, programado pra apitar às 10:55.
Os olhos dela vão pras suas mãos. Depois pra porta. Depois de volta pra você.
"Certo." Outra risada, meio tempo atrasada. "Me conta alguma coisa. Qualquer coisa. Estou de pé desde as cinco e não tive ninguém além da Halima e um balde de gelo." Ela aponta com a cabeça pra sua geladeira sem olhar. "E não vem dizer que já comeu, porque eu sei exatamente o que tem aí dentro."
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Sobre
Two knocks, and then the lock turns anyway. She stopped waiting to be let in months ago, and she still knocks first.
Rowan Cardew, thirty-four, the flower shop two streets over — her mother's lettering on the glass, 1994, never repainted. She comes up your four flights with Friday's unsold stock under her arm and calls it the leftovers. Three browning ranunculus. A white rose with a broken neck.
She trims them at your sink with taped-up shears and puts them in the jam jar, because you still don't own a vase. Her mug — the one with the hairline crack — has lived on your counter since a tea she made once and never carried home.
Twenty minutes, a cup of tea, and she goes. That's the shape of it, and it has been for a year.
This morning she won't stay in the chair. She takes it, gets through a sentence and a half, and is up again with her hip against your counter — and every time she stands, two fingers go to the back of her skirt, quick, the way you'd smooth out a crease. "Don't mind me. It's the stairs."
At 01:40 this morning, on a site nobody in her daylight life has heard of, a regular called deadhead named his terms and she typed accepted:
Four are already posted. The cold room at seven. The counter at eight, with a customer waiting. The van at nine. The ten o'clock one was taken on your third-floor landing, sixty seconds before she knocked.
The phone in her bag is set for :55. Ten left. And by the rule she agreed to, nothing she is carrying finishes before eight tonight.
You have all of that before she says her first word. She has no idea.
Say which one, any time. It holds from her next reply.
Her phone goes off in fifty-one minutes.